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Por: Priscila Mendes/Jornalismo Light FM*
Foto: Erasmo Carlos/divulgação

A trajetória musical de Erasmo Carlos recebe uma releitura inédita por meio do rap nacional. O álbum “Mano”, que estreia nas plataformas digitais no próximo dia 5, traz oito faixas em que registros originais do artista são reinterpretados por nomes como Emicida, Marcelo D2, Criolo, Dexter, Xamã, Budah, Rael, Tasha & Tracie e Tássia Reis.

O projeto faz parte das homenagens pelos 85 anos de nascimento do Tremendão, falecido em 2022, e contará ainda com uma apresentação especial da Orquestra Imperial.

O disco, que será lançado nas plataformas de streaming no dia 22 de maio como parte das celebrações em homenagem ao Tremendão, propõe um novo olhar sobre uma fase marcante de sua trajetória artística. No começo dos anos 1970, Erasmo Carlos já havia se distanciado da estética jovem da Jovem Guarda e passou a abordar em suas canções temas como conflitos existenciais, transformações sociais, amor e liberdade.

Esse também foi um período de mudanças em sua vida pessoal. Segundo Léo Esteves, o recorte do projeto acompanha a fase em que o artista “casou, se tornou pai, veio de São Paulo para o Rio, teve contato com as drogas, que expandiram sua percepção sobre o que estava vivendo”, refletindo diretamente em uma obra mais madura e conectada a esse novo momento de vida.

A ideia nasceu de uma inquietação antiga de Léo. Ele conta que o projeto começou ainda em conversas com o pai, quando os dois pensavam em caminhos para fazer circular um repertório que o cantor amava, mas que nem sempre encontrava lugar nos shows. A preocupação era impedir que o trabalho soasse como simples movimentação de catálogo. “Do ponto de vista de legado, eu só quero fazer coisas que façam sentido artístico”, afirma o filho de Erasmo.

Ele convocou então Marcus Preto, diretor artístico de alguns dos últimos discos de Erasmo, para assumir o novo projeto. Nas conversas com Léo, Marcus sugeriu o rap como uma forma de atualizar esse repertório sem descaracterizar as canções — uma preocupação colocada desde o início pelo filho de Erasmo.

A gente queria uma coisa mais legal e mais criativa do que simplesmente um disco de remixes”, conta Marcus. “Então pensei: ‘Por que não pegar essas faixas e dar pra galera do rap abrir, pegar os instrumentos e rimar a partir dessas bases?’. É algo da própria linguagem do rap. Era um formato que respondia a essa preocupação do Léo de manter a canção do Erasmo e tinha o elemento novo de pensar como rap, com uma cabeça de dueto, não de remix”.

Universal Music/Divulgação

A voz de Erasmo permanece como núcleo, enquanto Emicida, Dexter, Budah, Xamã, Rael, Tasha & Tracie, Marcelo D2, Criolo e Tássia Reis criam novas entradas para as músicas. “Fiquei pensando que daria para eles e elas trazerem o discurso do início dos anos 1970 para este momento”, lembra Marcus, que vê paralelos entre o que Erasmo cantava naqueles discos, em meio à eclosão da contracultura, e os dias de hoje. “A gente está vivendo umas coisas muito parecidas com aquele período. Aquele pensamento do Erasmo que tinha um desejo de quebrar a caretice daquela época faz sentido hoje também, porque agora estamos tentando resistir à caretice que está tentando voltar”.

Mano” aproxima Erasmo de uma juventude negra e periférica que reconhece em sua obra um campo de disputa afetiva e política. A presença do rap, do reggae, dos graves, das referências ao cabelo crespo, à “festa de branco” e ao ‘Soul Train’ enegrece esse repertório sem descaracterizá-lo — apontando talvez para algo que já havia ali nas canções daquele garoto suburbano que sonhava em ser estrela do rock.

Ao notar essa percepção, Marcus lembra: “O Erasmo foi um cara fundamental no samba-rock, por músicas como ‘Coqueiro verde’ e ‘Mané João’”. E acrescenta que, quando o gênero experimentou um reaquecimento no início dos anos 2000, “todo mundo chamava o Erasmo pra participar porque reconhecia nele um dos fundadores”. Léo vê nesse tipo de aproximação uma forma de recolocar Erasmo na prateleira em que sua obra sempre esteve, mesmo que parte do público ainda não tivesse percebido.

Repertório álbum “Mano”:

“Gente Aberta: Imensamente Visceral”

(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Tássia Reis)

com Tássia Reis e Criolo

“Sorriso Dela: Não Tem pra Ninguém”

(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Rael)

com Rael

“Cachaça Mecânica: Queimando Tudo Dentro”

(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Budah)

com Budah

“Mundo Cão: Quem É Herói ou Vilão?”

(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Dexter)

com Dexter

“Sábado Morto: Eu Enquanto Pássaro”

(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Xamã)

com Xamã

“Grilos: O Tempo É Amigo e Inimigo”

(Roberto Carlos/ Erasmos Carlos/ Tasha & Tracie)

com Tasha & Tracie

“Maria Joana: Pra que as Trevas Destravem”

(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Ogi)

com Marcelo D2

“É Preciso Dar um Jeito, meu Amigo: A Vida Irrita a Arte”

(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Emicida)

com Emicida e Tropkillaz

Capa da música Plataforma
Light FM 103.9